Donald Trump e o sequestro do Presidente Maduro

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Juarez Cirino dos Santos

1. Ação de terror contra Venezuela. Em guerra contra Venezuela, com porta-aviões e submarinos nucleares dos EUA no Mar do Caribe, usando helicópteros, drones e outras armas, militares e policiais americanos sequestraram o Presidente Maduro e sua esposa da residência oficial na madrugada de 03 de janeiro/2026, matando 32 agentes cubanos da segurança presidencial, enquanto aviões americanos bombardeavam a população civil de Caracas, matando mais de 100 cidadãos venezuelanos, em clara manobra diversionista da ação principal, conforme imagens de TV divulgadas na imprensa. A violação da soberania de um Estado independente, a lesão dos princípios de autodeterminação dos povos e de solução pacífica dos conflitos já foram denunciados à ONU, apesar da histórica subserviência política da instituição aos EUA. O poder é uma relação de força entre as classes sociais, o Direito é expressão do poder das classes hegemônicas da formação social, mas na área internacional o poder é direta relação de força dos países centrais do imperialismo contra as nações subordinadas e dependentes dos Estados periféricos, enquanto o Direito internacional é um embuste gigantesco que normaliza as relações de poder desigual entre os Estados, como mostra a história até nossos dias. A solidariedade incondicional ao povo da Venezuela, vítima de um ataque covarde movido pela cobiça sobre o petróleo do País, parece ser a única atitude digna da humanidade civilizada, embora incapaz de desfazer o mal causado.

2. Antecedentes bélicos da operação terrorista. A agressão contra o povo da República Bolivariana da Venezuela foi precedida de ações de pirataria em águas internacionais do Caribe, com roubos de navios privados de transporte de petróleo e sequestro dos tripulantes das embarcações – ainda em situação de desaparecimento público –, praticadas por forças militares regulares dos EUA, sob o falso pretexto de combate ao tráfico de drogas, com violação do art. 2º da Carta da ONU, e de Convenções internacionais sobre segurança da navegação marítima, sem nenhuma consequência jurídica contra as ações criminosas, conforme a prática habitual na área. As ações de pirataria no mar do Caribe, denunciadas pelo Governo venezuelano em 20 de dezembro de 2.025, integravam um plano definido de impor à Venezuela um modelo colonialista de submissão aos interesses monopolistas do imperialismo americano – semelhante ao modelo existente na maioria dos países da América Latina –, interrompendo o desenvolvimento econômico e as políticas democráticas do Governo constitucional da Venezuela. O Presidente Maduro denunciou as ações de pirataria ao Conselho de Segurança da ONU, na expectativa de responsabilizar o Governo dos EUA pelos atos criminosos – um ato de ingenuidade política, porque as ações de pirataria representavam o início de execução de um programa criminoso muito maior contra o Governo e o povo da Venezuela, consumado duas semanas depois, ainda sob os eflúvios das festas de Ano Novo.

3. A Doutrina Monroe e a violência política na América Latina. A ação de guerra contra Venezuela configura a retomada da Doutrina Monroe, criada pelo Presidente James Monroe em discurso ao Congresso dos EUA em 1.823, com o objetivo aparente de excluir ações europeias na América Latina, mas o objetivo real de garantir a influência econômica e política americana no Hemisfério – doutrina invocada inúmeras vezes nos séculos seguintes, em especial no Século 20 de emergência dos EUA como potência mundial, para justificar intervenções americanas na política e na economia das nações latino-americanas, descritas em As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, hoje em edição comemorativa de 50 anos. A Doutrina Monroe tem originado intervenções dramáticas na América Latina para garantir governos favoráveis aos EUA, e um exemplo histórico famoso foi a separação do território do Panamá pertencente à Colômbia, para criar o Canal do Panamá sob exclusiva dominação americana.

A ação política violenta dos EUA sobre a América Latina, sempre sob a égide da Doutrina Monroe, produziu a ditadura militar de 1.964 no Brasil, com prisões ilegais, tortura e assassinatos de militantes políticos, de operários e de estudantes durante 20 anos de terror, crimes até hoje não julgados pelos Tribunais brasileiros – uma omissão judicial que poderia ter evitado a tentativa de Golpe de Estado de 08 de janeiro de 2.023, de Bolsonaro e asseclas militares golpistas, que organizaram acampamentos sediciosos nos portões de Quartéis militares e iniciaram a execução do plano criminoso pela brutal destruição física dos edifícios-sede dos Poderes da República –, neste caso, em julgamento inédito, devidamente punido pelo Supremo Tribunal Federal. A mesma Doutrina Monroe, gerida pela CIA–Agência Central de Inteligência dos EUA, produziu o Golpe militar de 1973 no Chile, com repressão brutal do povo chileno, milhares de prisões ilegais, torturas e assassinatos políticos, mas com posterior prisão do ditador general Augusto Pinochet, julgado e condenado pela Justiça chilena. Insuflado pela mesma ideologia fascista, ocorreu o Golpe militar na Argentina de 1976, que também promoveu milhares de prisões ilegais e assassinou mais de 30 mil opositores do regime, mas com julgamento e condenação à prisão perpétua do general Videla e do almirante Massera em 1.985. O Uruguai – antiga Suíça latino-americana –, sob os auspícios da mesma ideologia violenta, viveu 12 anos de ditadura cívico-militar inaugurada por Juan Maria Bordaberry em 1.973, com as mesmas violações de direitos humanos, torturas, desaparecimentos e assassinatos políticos até 1985, em especial da oposição política dos Tupamaros, organização integrada por José Mujica, sobrevivente de dois anos de prisão solitária no fundo de um poço. A América Latina tem vivido uma história trágica nos séculos de dominação imperialista americana, em que a invasão terrorista da Venezuela é apenas o último episódio.

4. Mudança tática da estratégia política da Doutrina Monroe. Hoje vivemos nova escalada da Doutrina Monroe sob o Governo Donald Trump, impelido pela ideia megalômana do MAGA, ou Make America Great Again, com o objetivo de promover intervenções violentas para destruir projetos de democracia social real na América Latina, substituídos por governos títeres dóceis aos interesses econômico-financeiros americanos, restaurando a dominação yankee no Hemisfério Sul das Américas. O ataque à Venezuela atualizou a Doutrina Monroe, sob o argumento cretino do suposto destino manifesto do Hemisfério Ocidental, segundo a lógica trumpiana do “this is OUR Hemisphere”, que não só quer garantir recursos estratégicos de petróleo e terras raras desta área do Planeta, mas pretende excluir a influência do BRICS, da China e da Rússia na região – como refere Carlos Eduardo Martins em “Sobre o ataque à Venezuela e sequestro de Maduro”, (https://www.facebook;com/share/p/1Yhk61Bbsx). A normalização institucional da ação terrorista contra a Venezuela ameaça a América Latina como um todo, incluindo Brasil, México, Argentina e demais Estados, porque a contradição entre governos locais democráticos e os interesses de exploração econômica do capital imperialista, que exige políticas locais entreguistas, subservientes e corruptas, pode produzir idênticos acontecimentos terroristas em toda e qualquer nação do Hemisfério Sul, como demonstra o passado recente e remoto do Novo Mundo. Mas a estratégia de dominação política sobre os povos da América Latina parece ter abandonado a tática antiga de mobilizar comandantes das Forças Armadas locais para derrubar governos legítimos e instituir regimes sanguinários favoráveis aos EUA, substituída pela ação terrorista direta do imenso poder militar norte-americano, com o emprego de porta-aviões, submarinos, aviões, helicópteros, drones e toda tecnologia eletrônica dos conflitos bélicos modernos, mobilizados e operados por militares das Forças Armadas americanas, conforme demonstrou o sequestro terrorista do Presidente da República Bolivariana da Venezuela – hoje submetido à farsa humilhante de tribunais de exceção, instituídos para julgamento de crimes hipotéticos, imputados pela imaginação doentia dos dirigentes do Estado agressor.

5. Existe esperança para Venezuela? A esperança da Venezuela e da América Latina reside no pleno desenvolvimento da consciência política e da organização sindical e partidária das massas trabalhadoras, com a formação de governos populares comprometidos com reformas estruturais democráticas, integrando as camadas periféricas nacionais nos direitos constitucionais de cidadania e de dignidade do ser humano, primeiro passo para construir formações sociais coesas, livres e fortes, capazes de repelir intervenções indevidas na soberania do povo organizado no poder do Estado – aliás, como estava acontecendo na Venezuela, sob as três raízes do pensamento bolivariano (Ezequiel Samora, Simon Rodriguez e Simon Bolívar), segundo Nildo Ouriques, em “Qual o destino da Venezuela? no canal IELA – Instituto de Estudos Latino-americanos, UFSC (@ielaufsc). Mas a pergunta sobre a esperança da Venezuela teve resposta contundente do jornalista Pepe Escobar, no vídeo “China, Rússia e Irã reposicionam a Venezuela e aceleram o fim da hegemonia energética dos EUA” (@dompedrooficial na rede Tik Tok). O discurso de Escobar destaca o engano de Trump sobre o sequestro de Maduro, que deveria paralisar a economia energética local e obrigar a Venezuela a negociar de joelhos, mas determinou o início de um processo de desdolarização acelerada da economia internacional, porque forneceu a Xi Jimping da China, e Vladimir Putin da Rússia, a justificativa política para acelerar a criação de um sistema financeiro internacional alternativo ao petrodólar, que garante o poder dos EUA sobre todo o Mundo.

6. Mudanças na correlação de poder internacional. A China de Xi Jimping teria tomado duas medidas radicais contra os EUA: a) a retirada de US 500 bilhões de dólares aplicados em títulos do Tesouro americano – a maior liquidação de ativos financeiros americanos desde 1.971 –, já convertidos em ouro físico e reservas energéticas da Venezuela; b) as aquisições chinesas de petróleo venezuelano serão financiadas em petroyuan, criando uma moeda alternativa ao petrodólar. A Rússia de Putin, em resposta na linha chinesa, determinou o pagamento em rublos ou yuan de toda exportação energética para países não hostis, excluindo o dólar dessas transações e libertando o mercado da tirania monetária ocidental. O Governo iraniano (a) considerou a Venezuela parceira energética sob proteção da República Islâmica do Irã, (b) definiu novas agressões americanas como ataques diretos contra interesses iranianos e (c) declarou a Venezuela sob proteção defensiva do Irã, equipada com sistemas de mísseis avançados capazes de atingir qualquer alvo no raio de 2.000 quilômetros, no Caribe e América Central, na hipótese de novos ataques. Enfim, a Presidenta interina da Venezuela teria iniciado a Operação Bolívar-digital, (a) de conversão da economia venezuelana ao sistema de bancos chineses e russos, (b) de transferência de toda reserva monetária venezuelana para bancos chineses e russos, (c) de integração do sistema bancário venezuelano aos sistemas bancários da China e da Rússia, (d) de realização de todas as transações governamentais da Venezuela fora do sistema bancário ocidental, no maior e mais rápido exemplo de desdolarização de uma economia nacional petrolífera da história moderna – uma resposta direta contra a brutalidade americana, em plena consonância com o processo econômico-financeiro internacional de desdolarização da China, da Rússia e do Irã.

7. As impossíveis alternativas possíveis. Uma breve conclusão pode ser expressa em duas perguntas: a) estaríamos diante de um tiro pela culatra de Donald Trump, com o desencadeamento inconsciente de um processo universal de transformações econômico-financeiras, com radicais mudanças nas relações de poder da contradição imperialismo/dependência do capitalismo globalizado? b) seríamos vítimas da insanidade psíquica de um inconsequente badboy das elites americanas, acostumado a satisfazer os desejos lascivos mais inusitados pelo dinheiro farto, que ameaça lançar a humanidade em um conflito nuclear definitivo, porque é incapaz de distinguir a direção política do Estado mais poderoso do Mundo, da direção emocional de empresas econômicas do gigantesco patrimônio familiar? Quem viver, verá!

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