Uma distinção necessária
Sobre o autor [1]
Prefácio:
O mundo digital e suas armadilhas. O deslumbramento e a criação de universos fantasiosos e sedutores. A carreira brilhante, bens materiais de alto padrão e viagens internacionais. A vontade de captação de clientes a todo custo e de se autovalorizar. A consagração profissional no meio.
A motivação deste artigo é fazer um alerta e refletirmos juntos. O que está diante de nós, em nossos celulares, através das redes sociais, devem ser consideradas referências em nossa área? Seria tal pessoa um verdadeiro exemplo a ser seguido ou estamos diante de mais um jogo contado, e bem contado, que até mesmo acreditamos? Sinceridade ou Fumaça do “bom direito”?
Lhe convido a enfrentar esse tema. Referências e influenciadores. Uma necessária distinção.
- Matrix hoje e agora
Neste exato instante que escrevo este artigo, vivo o que chamo de “exílio digital”. Com atualmente 42,6 mil seguidores no Instagram, passei por fases profissionais onde postar era uma obrigação laboral. Hoje percebi que posso manter minha rede sem ter que vender minha privacidade ou postar o meu dia inteiro. Mantenho a rede social por conexão com pessoas, divulgação, mas depois de muita ansiedade gerada e dores de cabeça, hoje quem as domina sou eu.
Fiz uma escolha e não pedi para ninguém as fazê-las. Individualidade e auto gerência da carreira são muito respeitadas por aqui.
Percebi que minha privacidade vale muito e isso incomoda bastante parte da sociedade hoje. “Você viajou e não postou?” “Porque não postou nada no dia dos namorados?” “Só postagens profissionais, as pessoas não curtem!”.
Como lhes disse. Decisões estão aí para serem tomadas.
Decidi que o Rodrigo Bello profissional não se confunde com Bello pessoal. Demorei a entender, mas aprendi. Até de “blogueiro” já fui chamado por colegas do meio. Talvez eles tivessem razão, quando eu fazia parte do corpo docente de cursos preparatórios e advogava pouco. Hoje a maturidade me trouxe cuidados digitais e um posicionamento firme perante meu @professor_bello.
E nossa realidade atual? Não sou daqueles aficionados em filmes e séries de ficção-científica, mas tenho meus momentos nesse universo. Não posso negar o quanto gosto de Blade Runner, Alien e Matrix, este último inspirando o título do tópico.
Naquela obra, as máquinas dominam o mundo e os rebeldes precisam lutar contra o sistema manipulador. Um futuro distante? Para mim, não.
Me entristece ver pessoas que dão mais valor ao celular do que conversar, tocar e olhar “olho no olho”. Todos temos alguém por perto que age dessa forma. Que tal abandonar a máquina um pouco e saborear a vida que está passando? Todos já sabem que o vício na tela já é questão de saúde pública e não vim aqui trazer obviedades.
Por ter gostado bastante da abordagem do analista política e analista Zack Lopes, gostaria de iniciar dividindo com todos vocês a nova realidade Matrix que vivemos, muito bem abordada tecnicamente pelo Sr. Zack. Começa de forma reflexiva e perturbadora, bem no nosso estilo:
“E se eu te disser que as redes sociais controlam você?
Tudo é calculado para manipular você.
O algoritmo não trabalha para você. Ele trabalha para quem te paga para influenciar.
No fim, quem perde é sua liberdade. Quem ganha é o sistema.
Você sabia que as redes sociais controlam você? Parece exagero, mas basta olhar a forma como seu celular dita seus horários, humores e até opiniões. Cada toque na tela é monitorado, armazenado e usado para construir um “avatar digital” seu. Essa versão virtual não é só um perfil, é um modelo preditivo que conhece seus gostos, medos e fraquezas. Esse avatar é vendido para anunciantes e usado para manipular seu comportamento sem que você perceba. Não é você que usa a rede, é ela que te usa, moldando sua rotina e pensamento.
Esses aplicativos foram projetados para criar dependência. Cores, sons, notificações e recompensas são estrategicamente calculados para manter você preso. Nada é por acaso: o feed infinito, a rolagem automática, os alertas em vermelho. Tudo explora mecanismos de dopamina, como máquinas de caça-níqueis digitais. Você acha que decide quando entra e quando sai, mas na verdade cada interação já foi antecipada e estimulada pelo algoritmo. No fim, sua atenção é o produto real que está à venda.
O avatar digital é construído com precisão assustadora. Cada segundo de vídeo, cada palavra digitada, cada curtida é analisada. O algoritmo detecta padrões, antecipa desejos e até prevê crises emocionais. Com isso, começa a influenciar não só o que você vê, mas como você pensa. Essa influência é gradual e quase imperceptível, o que torna mais perigosa. Aos poucos, não é só sua vida online que ele molda, mas sua percepção sobre o mundo físico também.
As redes não lucram vendendo anúncios, se sim vendendo previsões sobre você. Se uma plataforma sabe que amanhã você vai procurar um tênis ou se irritar com uma notícia, ela pode vender essa informação antes mesmo de você decidir a agir. É um leilão constante de sua atenção, e cada notificação recebida é como uma isca para garantir que você continue alimentando o avatar. Essa engrenagem não precisa censurar nada, só precisa direcionar o que você vê e quando vê.
Esse vício não é acidente, é engenharia. Psicólogos, programadores e especialistas em comportamento trabalham juntos para criar ciclos de recompensa e frustação que mantém você voltando. Pequenos picos de prazer intercalados com a promessa de mais – exatamente como no jogo. É um sistema global de manipulação, mas como uma diferença crucial: ele é personalizado. O que prende você não é o mesmo que prende outra pessoa, e essa personalização é o segredo do controle.
O maior perigo não é o tempo perdido, mas a substituição da vida real pela versão digital. O avatar passa a ser mais ativo que você, interagindo seus comentários, discussões e bolhas ideológicas enquanto sua vida física perde prioridade. Experiências deixam de existir pelo valor em si e passam a valer apenas se forem postadas. Aos poucos, memórias reais são substituídas por registros públicos, e o que não é visto na rede simplesmente perde importância.”
E conclui sua magnífica análise, que propositadamente escolhi para iniciarmos nossa abordagem no meio jurídico, não só no ensino como também no meio profissional da advocacia:
“A única saída é consciência e ação deliberada. Reconhecer que existe um avatar sendo usado contra você é o primeiro passo. Depois, é preciso criar barreiras: estabelecer limites, filtrar o que consome, escolher quando se conectar. Não se trata de demonizar tecnologia, mas de retomar o controle sobre ela. Porque, no fim, ou você decide como vive e o que pensa, ou esse papel será assumido por um sistema que já está pronto para decidir por você.”
- Contexto
“A incessante busca por likes destruiu o critério, a ética e a autocrítica, com essa conduta predatória e mesquinha, na qual a sede de sangue, a inveja, o ódio, a ganância e o desespero pela sobrevivência atropelam o respeito e ignoram as consequências. Mesmo que isso escancare sua mediocridade.” Fernando Badauí
Fui professor de cursos preparatórios e graduações durante mais de 18 anos. Atualmente exerço a docência de forma pontual, como coordenador da Escola Superior da Advocacia na OAB/RJ e ministrando encontros em Pós-graduações Lato Sensu espalhadas pelo Brasil. Definitivamente me encontrei profissionalmente na advocacia de campo, naquela que luta incessantemente em tribunais e repartições públicas, que gosta de fazer audiência e sustentações orais. Aquela advocacia aguerrida, presencial, humanizada, pautada pelo respeito e que, em suma, preconiza por dogmas e garantias constitucionais. Eu continuo acreditando no sistema acusatório e nas garantias constitucionais. É o que me move.
Em sala de aula, especificamente para o Exame de Ordem, fui professor de grandes cursos preparatórios pelo Brasil, tendo milhares de alunos, que hoje, exercem a advocacia e são colegas de profissão. Uma das minhas missões em sala de aula era ajudá-los a passar no Exame que, ao longo do tempo, todos continuam questionando o grau de dificuldade. Está cada vez mais difícil, ou será que o nível dos candidatos piorou? É uma excelente discussão sem fim e sem martelo batido. Isso sem falar na celeuma acerca da necessidade de termos cursos preparatórios para o Exame. O aluno/candidato não deveria estudar ao longo da faculdade e, assim, consequentemente, possuir amplas condições de aprovação sem a necessidade de investir em um curso?
O objeto deste intrigante artigo é estabelecer um paralelo entre o nível do estudante de direito e a necessidade de inspirações em referências, as diferenciando de meros influenciadores. Utilizaremos o perigoso universo das redes sociais para enfrentar o alerta necessário que esse artigo, humildemente, se propõe a fazer. Isto porque hoje todos nós possuímos “@ – arrobas” e estamos conectados mais do que precisamos, essa é a grande verdade. O aluno de direito hoje não foge à regra. Passa grande parte do seu tempo nas redes. E aí que surge a armadilha de confundir influenciador com referência. É necessário cuidado!
Precisamos ter melhores profissionais no mercado e não meros possuidores da carteira vermelha. Os conhecimentos precisam ser aprofundados. Infelizmente, estamos, em minha opinião, vivendo a era da superficialidade. O senso crítico e comparativo está em baixa, campo fértil para falsas promessas e ilusões digitais.
Como fazer o aluno atual se tornar um grande jurista? Que não sejamos rigorosos. Como fazer com que se torne um profissional realizado, capaz de ser uma referência? Aquele que tenha seu discurso ouvido com atenção e que trilhe um caminho de notoriedade e respeito pela sua atuação?
As referências se esforçaram e continuam se esforçando muito, até porque, para elas, não existe conforto ou limite. A inspiração começa aí. Sustento que em todas as carreiras o espelho da referência nos ajuda na evolução profissional. O contexto atual, a meu ver, é perigoso, pois as redes sociais trazem meros influenciadores que, com postagens cinematográficas ou com os chamados gatilhos, vendem a carreira perfeita. Tudo muito elaborado, porém de forma superficial.
Nessa delimitação do artigo, usarei as redes sociais – que todos nós possuímos, como pano de fundo. Abordaremos detalhes técnicos que fui pesquisar sobre elas ao longo do texto. Lembro-lhes que não sou um crítico feroz delas, mas, ponderando, como em tudo na vida, temos lados positivos e negativos. Hoje, as redes, para a nossa triste constatação, é uma verdadeira fonte de inspiração e estudo para muitos estudantes. Sou da época de 4 volumes de Processo Penal. Depois passaram a comercializar obras em volume único, culminando com os resumos em pdfs e, atualmente, em postagens.
Aprender e adquirir conhecimento dá trabalho, é solitário e exige tempo.
Um esclarecimento merece ser feito. Ao falar de influenciadores, este artigo não quer atacar ninguém. Quero apenas desabafar e gerar um alerta para quem o lê e gosta do meu trabalho. Sempre prezei pelo respeito e jamais traria nomes a fim de torná-lo algo como ferramenta de ataque. É generalista.
- Professor não é psicólogo.
Retornando ao núcleo do debate, pude perceber, sendo bastante próximo aos alunos, que instabilidades emocionais, carências, ansiedades e receios de reprovação eram os verdadeiros inimigos, além da quantidade de matéria que ainda faz muitos alunos reprovarem por acharem que precisam saber tudo. A figura do professor é exigida além do Direito, fazendo, mesmo que institivamente, o papel de “psicólogo” – entre aspas, pois para exercer esse cuidado da sanidade mental das pessoas, se requer muito estudo, preparo e sensibilidade.
O professor de Direito, sem essa formação, não pode ser equiparado ao papel desta carreira tão linda e necessária.
Em consulta ao sítio eletrônico da Faculdade do Futuro[2], atestamos a importância da psicologia atualmente:
“Isso porque, para tratar as dores emocionais e minimizar os problemas, além de um ouvido atento e preparado para compreender processos e percepções, os profissionais da área de psicologia avaliam e acolhem questões relacionadas a comportamento, traumas e outros assuntos. Assim, é possível atuar de uma forma muito mais ampla. Não à toa, cada vez mais pessoas têm entendido que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo; e que equilibrar pensamentos, desejos, frustrações e emoções é viver bem consigo mesmo e com a sociedade de um modo geral.”
Definitivamente o professor não pode se equiparar a profissional demasiadamente importante e complexo.
- O cenário estudantil
E para contextualizar ainda mais o tema, vamos separar hoje dois grandes grupos de estudantes. Aqueles que possuem referências em casa e na família, ou seja, possuem relativos próximos que são da área (não foi o meu caso, por exemplo), com aqueles estudantes que entram na faculdade de Direito – sabe-se lá por que – e não possuem nenhuma referência jurídica por perto, também este o meu caso. Entrei no referido curso porque sempre gostei de ler.
E por que dessa distinção? Aqueles que possuem referências podem ser alertados acerca dos atalhos e caminhos fáceis oferecidos por influenciadores. Já aqueles que não possuem referências, terão um caminho mais longo e ainda podem acreditar em postagens que não condizem com a realidade.
Um registro precisa ser feito. Referências e influenciadores têm suas redes sociais, por óbvio. Ninguém aqui está criticando essa poderosa ferramenta de aproximação. A questão toda é: como distinguir uma referência de um mero influenciador nas redes sociais? Como não ser seduzido pelo canto da sereia?
- Referências vs. Influenciadores
Para que delimitemos o texto, preciso destacar as diferenças entre referências e influências. Ousando criar essa distinção, diríamos que referências estão ligadas diretamente a profundidade de conhecimento, ética profissional e comportamento condizente com a profissão. Já influências seriam atitudes mais triviais, ligadas a fantasia do personagem e momentaneidade. Uns inspiram perseverança, outros “vendem” ilusões.
Ser referência, em particular, dá trabalho, exige tempo, paciência e estudo. Credibilidade é algo raro e difícil atualmente, exigindo um conjunto de atos verdadeiros perante sua comunidade. Existe algo de verdadeiro ligado à referência. Existe algo de ilusório ligado à influência.
- Redes Sociais
Uma realidade. Gostando ou não, hoje nosso cotidiano gira em torno das redes sociais. Segundo reportagem da FORBES[3], sem criar pânicos, o “Brasil é o terceiro maior consumidor de redes sociais em todo o mundo. O levantamento da Comscore mostra que o país é o primeiro da América Latina em acesso às plataformas, o equivalente a 131,5 milhões de pessoas.”
E que tal dados referentes à saúde mental? Pela importância do registro, segue colação de reportagem vinculada na CNN Brasil[4]:
“36,9% dos brasileiros que passaram 3 horas ou mais por dia nas redes sociais, 43,5% possuem diagnóstico de ansiedade. É o que aponta o relatório “Panorama da Saúde Mental”, do Instituto Cactus e da AtlasIntel.
Na visão dos autores do estudo, o uso das redes sociais pode apresentar efeitos deletérios que impactam negativamente a saúde mental. Estudos já associaram a utilização excessiva de redes sociais a problemas de autoimagem, a menor interação social presencial, a maior exposição ao cyberbullying, a alterações no sistema dopaminérgico de recompensa e ao medo de não estar inteirado dos acontecimentos.
Além disso, o uso excessivo de redes sociais está relacionado ao aumento da prevalência de depressão e ansiedade. Recentemente, um estudo da Faculdade de Saúde da Universidade de York, no Reino Unido, mostrou que mulheres que fazem uma pausa no uso das redes sociais têm uma melhora significativa na autoestima e imagem corporal.
Outra pesquisa, realizada por cientistas da University College London (UCL), mostrou que adolescentes viciados em internet passam por alterações cerebrais que podem levar a mudanças de comportamento e ao aumento nas tendências de dependência — definida como a incapacidade de uma pessoa resistir ao impulso de utilizar a internet, impactando negativamente seu bem-estar psicológico, bem como a sua vida social, acadêmica e profissional.”
E qual é o perfil hoje da grande maioria dos estudantes de Direito? Cada vez leem menos livros, cada vez mais digitais, cada vez mais seduzidos por influências rasas das redes sociais.
Como se tornar um profissional respeitado sem profundidade? Sem ler? Sem estudar? Adquirir conhecimento dá trabalho, exige solidão e, por óbvio, uma diminuição de tempo no celular. Ou existe alguma magia que desconheço?
Sinto-me profundamente triste e intrigado que alunos de Direito hoje passam 05 anos da faculdade sem lerem um livro. Como salvá-lo? Costumo falar para os meus alunos que uma das grandes genialidades do futuro advogado é a utilização correta da palavra, escrita e falada. Como escrever ou falar bem, sem o hábito da leitura?
Novas ferramentas de ensino, como videoaulas, por exemplo, agregam ao ensino, mas jamais substituem. Qualquer referência sabe da importância da leitura.
E, se para alguém que tem referência familiar já é difícil escapar da armadilha das fantasias das redes sociais, imaginemos aquele nosso personagem inicial que não tem, perto de si, alguém para se espelhar? As redes sociais o seduzem e acaba havendo uma confusão entre influências e referências.
Aos nos deparamos com algo que nos chama atenção nas redes sociais, será que nos preocupamos em saber se aquilo é verdadeiro? É algo digno de se tornar uma referência?
Não sou contra redes sociais. Não quero ser um ser contemporâneo que não caminha junto com a luz da evolução, mas precisamos diferenciar o que nos torna pessoas melhores e mais poderosas profissionalmente. As redes sociais são perigosas para serem criadas falsas referências. Por isso a necessidade de diferenciação. Se o estudo exige tempo, dedicação, paciência, solidão e visão crítica, como identificar uma referência com algumas postagens. O conjunto da obra exige pesquisa.
- Alerta
O rapper Criolo, em seu famoso single Bogotá, avisa:
“Fique atento, irmão Fique atento, quando uma pessoa lhe oferece um caminho mais curto Quando uma pessoa lhe oferece um caminho mais curto, fique atento.”
A articuladora multidisciplinar com foco em abordagens e práticas decoloniais para mobilização comunitária, planejamento de recursos, e políticas no Sul Global Angélica de Freitas e Silva[5], assim define o rap, que, perfeitamente, se aplica ao nosso contexto:
“Herdeiro de movimentos libertários, o rap é o meio pelo qual o povo periférico ensina e aprende a pensar sua realidade, criando condições para “o conflito inevitável. Uma pedagogia viva que atravessa criações, de Racionais MC’s a Djonga”.
Não podemos acreditar em tudo que é postado. Esse é o ponto. Likes e número de seguidores não estão ligados diretamente a excelência do profissional. Já dizia Dj Guuga:
“O golpe tá aí, cai quem quer”.
A utilização do rap do funk é proposital, não que sejam ritmos que ouço com frequência, mas entre os estudantes, podem ter certeza que sim.
Vamos adaptar os ensinamentos em forma de alerta.
Será que aquela postagem de “A defesa brilhou” condiz com a realidade verdadeira dos fatos? Nunca saberemos. Já presenciei uma postagem de advogados neste sentido e que, coincidentemente, fiquei sabendo depois que o desfecho foi altamente prejudicial ao réu.
Postar com ética e sabedoria, exige leitura do Estatuto, exige cuidado e profissionalismo. Entretanto, no mundo digital, existe um verdadeiro vale tudo. A busca por notoriedade é sedutora, para alguns. Se a sociedade está impaciente, essa é a melhor forma de “ficar conhecido”.
Outro ponto é a comercialização, no mínimo, questionável, de cursos que prometem ganhos instantâneos. Definitivamente gostaria de entender essa previsibilidade tão certeira. Faz o curso e terá ganhos rápidos? Vamos todos fazer então!
A verdade é que talvez ninguém queira ouvir que estudar dá muito trabalho, exige solidão, livros de diversos autores, palestras, aulas e, mesmo assim, depois de muito tempo não saberemos nada, gerando ainda repetições no estudo, busca de novas fontes. O profissional do Direito jamais pode ficar estático.
Podemos ser influenciados a comprar uma determinada marca de roupas, porque nosso ídolo as usa. Maravilha. Não há nada de mal nisso. Agora, no campo do Direito, acreditar que ostentação é sinônimo de tornar aquela pessoa referência, é algo completamente diferente e beira à inocência.
“Fulano tem um carro caro. É uma referência para mim. Quero ser ele.” Em particular, minhas referências não fazem isso. Talvez eu esteja antiquado ou ultrapassado, mas ostentar para mim é trabalhar e viver bem, sem precisar e ter a necessidade de mostrar isso aos outros, constantemente. A discrição é uma qualidade das referências, na minha singela opinião. Pelo menos todas as minhas são assim. Possuem redes sociais, são
elegantes e as postagens são sóbrias e com conteúdo. A futilidade é um plano secundário, pois também precisamos dos prazeres fáceis e sem complexidade. As referências vão a estádios, ouvem música, tomam cerveja, viajam, mas não fazem disso um evento para arrancar aplausos e likes.
É preciso distinguir a profundidade daquilo que é rasteiro. Uma vez li um livro chamado “Brandwashed: o Lado Oculto do Marketing” de Martin Lindstrom. Em certa passagem ele cita uma ferramenta de venda muito utilizada em farmácias. Ao entrar em uma farmácia, se não a conhecermos, ficaremos perdidos. Ao conversar com um atendente e solicitar o que queremos, imediatamente ele nos entregará uma cestinha e, provavelmente, além de comprar a necessidade inicial, já que estamos com a cestinha, vamos aproveitar e comprar mais coisa. O anzol com a isca foi lançado e o mordemos com gosto. Mais vendas, concluídas com sucesso. Lembra das grandes lojas de Departamento que, ao se dirigir ao caixa, passamos por um corredor de guloseimas? O “golpe” está aí…
Algumas postagens em nosso meio jurídico utilizam técnicas semelhantes. São fotos cinematográficas, ternos caros, valores de honorários substanciosos, lugares finos. É profissional de sucesso. A influência é feita de uma forma agressiva. O aspirante a ter aquilo tudo, morde o anzol. Ele quer o ganho rápido. Ele também quer degustar um vinho caro.
A agressividade hoje também é publicizada. Aquele advogado que briga, discute, se exalta, bate na mesa é visto por muitos, como combatente e aguerrido. Um esclarecimento precisa ser feito. Quem tem conhecimento da causa, é estudioso da matéria e ainda sabedor de seu papel no cenário processual, em minha singela opinião, não se exalta. Ser combativo não é sinônimo de brigar. Combativo na elegância das palavras, na gentileza do trato e na busca de justiça com educação. A exaltação não pode ser profissional. A frustação pode acontecer quando se chega em casa, jamais perante um Tribunal, local que merece ser tratado com dignidade.
É preciso ter paciência. A construção de uma referência é algo complexo.
O mundo encantado das redes não para por aí. Você sabia que uma pesquisa feita pela Revista Científica Personality and Social Psychology Bulletin, concluiu que “Casais felizes tendem a postar menos sobre seus parceiros nas redes sociais.”?
Vejamos interessante abordagem deste estudo:
“Os cônjuges mais afastados das mídias sociais costumam aproveitar melhor os momentos juntos. Os estudiosos ressaltam ainda que eles dificilmente sofrem influência de opiniões externas e sequer sentem necessidade da aprovação de outros indivíduos.
Assim, se mostram alegres com frequência, além de estarem mais conectados e satisfeitos com a relação. “Quando você mantém o seu relacionamento offline, tem espaço e liberdade para desenvolver e criar um vínculo íntimo”, explicou o especialista em relacionamentos, Caio Bittencourt, ao site ‘Alto Astral’.
Os efeitos da comparação
Em contraposição, os casais que expõem até os mínimos detalhes da convivência a dois nas redes sociais apresentam níveis mais elevados de ansiedade e insegurança. Segundo profissionais, isso ocorre porque ambos passam a sofrer com o desejo de sempre esbanjar felicidade, assim como veem outras pessoas fazendo.Desta forma, há também um aumento da cobrança sobre o parceiro para não somente atingir as expectativas do outro, como demonstrá-las aos amigos online. “Se criam esperanças irreais, fazendo com que se espere a perfeição no seu parceiro ou parceira, o que é algo absurdo e impossível”, explicou.
Além disso, os especialistas alertam que o compartilhamento excessivo abre margem para o julgamento daqueles que acreditam conhecer profundamente a vida pessoal do casal. Por isso, a pesquisa indica deixar as redes de lado e buscar compreender tanto as próprias emoções e desejos quanto os do cônjuge.
“Ao invés de se preocupar com a opinião alheia sobre o relacionamento ou mostrar para os outros só a parte boa das coisas, você pode focar mais em como você e seu parceiro se sentem um com o outro e fazer o que realmente os fazem felizes”, alertou.
Estranho deve ser aquele que preserva sua intimidade e privacidade, não é mesmo? Por falar nelas, quanto valem a de vocês?
- Conclusão
No sítio eletrônico da Universidade Unileão[6], são dadas 8 dicas para se tornar uma referência profissional em sua área de atuação. Além de mencionar que: “para se tornar uma referência profissional você precisará traçar um longo caminho, consolidando conhecimentos e se desenvolvendo na sua carreira”. Vejamos:
- Escolha uma carreira que lhe dê motivação;
- Continue se aperfeiçoando;
- Compartilhe conhecimentos;
- Tenha a tecnologia como uma aliada;
- Produza conteúdo interessante;
- Conheça bem seu cliente;
- Tenha uma oferta de produtos ou serviços diferenciada;
- Esteja disponível.
Nitidamente qualquer pesquisa que façamos sobre se tornar ou ser uma referência, passa pelo aspecto temporal. Não se trata de algo da noite para o dia. O cuidado com postagens nas redes sociais, passa por esse cuidado.
Vejamos artigo da Equipe Blog Portal Pós[7]:
“Para se tornar uma referência na carreira, a pessoa deve apresentar um histórico consistente de realizações, contribuições valiosas e um impacto positivo na área em que se encontra. Na prática, os profissionais de referência conquistaram a confiança de seus colegas, clientes e da comunidade em geral. Suas opiniões carregam peso justamente por conta de uma reputação sólida.
Um profissional que é uma referência em sua área é conhecido por buscar constantemente a excelência em tudo o que se propõe a fazer. Com isso, a qualidade de seu trabalho pode ser vista como uma prioridade. Além disso, estamos falando de uma pessoa que se esforça para entregar resultados além das expectativas.
Vale observar que os profissionais considerados como referência não costumam guardar o próprio conhecimento apenas para si. Com base nisso, é possível crer que eles estão dispostos a compartilhar insights, orientações e dicas com outros profissionais em crescimento.
Um dos aspectos que se destaca nos profissionais de referência é o networking: essas pessoas possuem conexões valiosas em sua área, o que ajuda a manter atualização em relação ao mercado de trabalho.
Mas é necessário refletir o seguinte: ser uma referência é um processo contínuo de desenvolvimento pessoal e profissional. Para chegar a esse patamar, o profissional precisa cultivar determinadas características ao longo do tempo, com compromisso.”
Espero que este despretensioso artigo tenha atingido a finalidade proposta. Trata-se de uma angústia pessoal se deparar com falsos messias na internet que não apresentam as verdadeiras mazelas e dificuldades da carreira. As referências precisam ser exaltadas. Precisamos ter cuidado com quem iremos chamar de referências. Elas não são categorizadas assim pelas redes sociais e, sim, pelo conjunto da obra.
E antes do meu até breve, dedico este artigo a grandes referências que tenho na carreira. À minha primeira professora de processo penal, Ana Cristina Mendonça, à qual tenho o prazer de ainda conviver em sala de aula e palestras pelo Brasil e aos juristas que a advocacia aproximou, os brilhantes e grandes personas Diogo Malan e Geraldo Prado, com toda minha admiração e respeito.
Por mais sinceridade, profundidade e honestidade.
[1] Rodrigo Bello é advogado criminalista sócio do Escritório Gabriel Quintanilha Advogados, Pós-graduado Lato Sensu em Ciências Penais pela UGF/RJ, Graduado pela Universidade Cândido Mendes/RJ, Membro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/RJ compondo a 7ª Turma Julgadora, Coordenador no Âmbito Criminal no Conselho Consultivo da Escola Superior da Advocacia – ESA/RJ, Advogado associado ao IAB – Instituto dos Advogados do Brasil e a SACERJ – Sociedade de Advogados Criminalistas do Estado do Rio de Janeiro, professor de Direito Processual Penal e Prática Penal em Pós-Graduações pelo Brasil (Universidade Cândido Mendes/RJ, Instituto Goiano de Direito/GO, Instituto Maranhense de Direito/MA, Instituto de Estudos Jurídicos/DF, Verbo Jurídico/RS, dentre outros), palestrante, autor de Obras Jurídicas e Artigos Científicos , dentre eles o Manual de Prática Penal Ed. Gen – 7ª Edição, carioca e cidadão honorário de Curitiba/PR.
[2] https://faculdadedofuturo.com.br/blog/psicologia-a-importancia-da-area-nos-dias-atuais/
[3] Leia mais em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2023/03/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-consome-redes-sociais-em-todo-o-mundo/
[4] https://www.cnnbrasil.com.br/saude/brasileiros-que-passam-mais-tempo-nas-redes-sociais-sao-os-que-tem-ansiedade/
[5] https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/rap-educacao-e-as-palavras-como-armas-milagrosas/
[6] https://unileao.edu.br/blog/referencia-profissional/
[7] https://blog.portalpos.com.br/o-que-e-ser-referencia/#:~:text=Para%20se%20tornar%20uma%20refer%C3%AAncia,e%20da%20comunidade%20em%20geral.